Reter os alunos atuais e captar novos é um ciclo constante nas estratégias das IES (Instituições de Educação Superior), mas a pandemia chamou a atenção para um ponto relevante: a evasão no ensino superior.
Segundo o Semesp – instituto que representa as mantenedoras de ensino superior no Brasil – em 2021, a taxa de evasão escolar chegou aos 36,6% nas modalidades de ensino a distância (EaD) e presencial. O percentual equivale a 3,42 milhões de alunos.
Muitos fatores têm contribuído para construir este cenário preocupante e não há fórmulas mágicas para reverter este quadro de evasão.
Entenda melhor o cenário brasileiro
De acordo com Celso Niskier – Diretor-Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), “a combinação de indicadores financeiros, acadêmicos e socioeconômicos do estudante” pode contribuir para direcionar ações estratégicas nesta direção.
Na contramão deste quadro, os resultados do Censo da Educação Superior 2020 apontam que a educação superior brasileira manteve a tendência de crescimento no número de matriculados, ingressantes e concluintes. Os dados são do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Ministério da Educação (MEC).
Um dos destaques do Censo foi que o número de matriculados, em cursos à distância, aumentou. Em 2020, pela primeira vez na história, os ingressantes nesta modalidade ultrapassaram o total dos novos alunos nos cursos de graduação presenciais.
Dos mais de 3,7 milhões ingressantes de 2020, nas instituições públicas e privadas, mais de 2 milhões (53,4%) optaram por cursos à distância e 1,7 milhão (46,6%), pelos presenciais.
“Agora os educadores têm como responsabilidade garantir que se ofereça no EaD a mesma qualidade do presencial”, projeta Niskier, o convidado do Blog da Minha Biblioteca, para analisar este contexto de cenários, aparentemente opostos, sob a perspectiva das IES e das necessidades de um momento atípico na Educação. Leia a entrevista exclusiva.
Sobre a captação de alunos
A captação e retenção de alunos são aspectos fundamentais para a sustentabilidade das instituições de ensino superior.
No entanto, desafios econômicos, mudanças nas políticas públicas e a própria percepção do valor da educação impactam diretamente esses processos.
Nesta entrevista, Celso Niskier, diretor-presidente da ABMES, aborda os principais fatores que influenciam a entrada e permanência dos estudantes no ensino superior, destacando a importância de estratégias eficazes, programas de financiamento e iniciativas voltadas ao fortalecimento da educação no Brasil. Acompanhe.
MB – Os resultados deste processo – reter e captar – são uma forma de medir o bom ou mau desempenho de uma instituição?
Celso Niskier – O desempenho das IES está sim ligado à sua capacidade de atrair e reter alunos, pois esses processos impactam diretamente a saúde financeira da instituição. Sem um bom desempenho as IES não terão resultados que possam ser investidos na qualidade e no crescimento institucional.
MB – O enfraquecimento das políticas públicas de financiamento estudantil também tem relevância em meio às dificuldades para o ingresso e conclusão de uma graduação?
Celso Niskier – Sem dúvida, o enfraquecimento do FIES – Fundo de Financiamento Estudantil – é um dos fatores que vêm impactando o ingresso no ensino superior, já que grande parte da população jovem se encontra sem condições financeiras de arcar com os investimentos na formação universitária. Nós, da ABMES, defendemos um retorno à visão social do financiamento estudantil, com a criação de regras mais flexíveis, incluindo a possibilidade de condicionar os pagamentos futuros à renda do estudante.
Deve-se considerar, também, que o histórico quadro de desigualdade econômica sempre foi um desafio a ser superado por uma parcela significativa da população, ávida por ingressar e concluir uma graduação. Por algum tempo, o FIES foi uma ponte eficaz entre indivíduos com dificuldades financeiras e a educação superior. O enfraquecimento do programa foi um duro golpe para quem precisa de auxílio para acessar um curso superior e/ou para se manter nele.
A reversão desse quadro só será possível com a retomada de um programa amplo de financiamento estudantil e com a recuperação do valor da educação para cada indivíduo e para a sociedade. Porém, até que isso ocorra, o setor particular de educação superior precisa seguir dando a sua contribuição.
MB – A ABMES tem iniciativas nesta direção? O que é o movimento #EuSouOFuturo?
Celso Niskier – O Eu Sou o Futuro visa incentivar a retomada do interesse do jovem pela educação superior, manutenção da formação, com ofertas especiais de matrícula, para estimular a captação e a permanência dos estudantes. É um movimento pelo futuro dos jovens e do País. São milhares de vagas em cursos de graduação e pós-graduação, nas modalidades presencial, híbrida e à distância, em diversas áreas do conhecimento, ofertadas com condições especiais e personalizadas.
É uma iniciativa da ABMES e da Futuria, empresa de educação do Santander Universidades. Já mobilizou mais de 5.300 unidades educacionais de todo o país, na busca por alternativas para viabilizar o acesso à educação superior. Só neste primeiro semestre de 2022, milhares de estudantes já se inscreveram para ter acesso às condições especiais oferecidas por meio do projeto.
É importante lembrar que, embora uma atuação em conjunto tenha mais força, há diversas ações que podem ser desenvolvidas, individualmente, pelas próprias IES e que são capazes de incidir na evasão dos graduandos. Entrar em contato com os alunos que abandonaram seus cursos e convidá-los a retornar pode ser um bom ponto de partida. Mas é claro que este tipo de estratégia precisa ser acompanhado de alguma forma de apoio, seja financeiro ou acadêmico, para que o aluno possa, inclusive, recuperar suas perdas de aprendizagem.
MB – Muitas IES priorizam a captação de novos alunos. Você acredita que é o suficiente ou o cuidado para permanência do estudante, que já está lá, é mais importante?
Celso Niskier – Deve-se buscar a captação sempre, mas sem se descuidar da retenção. Ambas são igualmente importantes para garantir o crescimento sustentável das IES.
MB – Especialistas dizem que, dentre as formas de chegar ao potencial aluno, estratégias de comunicação e marketing de conteúdo aparecem como viés em alta nas IES, com campanhas de divulgação na mídia, não apenas na época pré-vestibular, mas ao longo do ano. Você concorda?
Celso Niskier – Concordo sim. As IES devem se manter visíveis durante todo o ano. A captação não é mais em ciclos, ela ocorre o tempo inteiro. Essa é a nova realidade da comunicação.
MB – A pandemia tem sido usada como principal argumento para a evasão dos estudantes e as dificuldades de captação. Quais os outros fatores – políticos, econômicos, financeiros, motivacionais, tecnológicos – que você acredita têm contribuído para o atual panorama da Educação no Brasil?
Celso Niskier – Como eu mencionei antes, houve uma primeira onda com a crise econômica e, em seguida, uma nova onda com as mudanças (para pior) no FIES. Juntamente com a terceira onda, um verdadeiro “tsunami”, que foi a COVID-19, o setor foi muito impactado e tenta se recuperar a partir da inovação tecnológica, da oferta de produtos mais sintonizados, com o mundo do trabalho, e do aprimoramento da gestão. As próximas eleições trarão novos cenários políticos e defendemos que a educação superior tenha o merecido destaque nas políticas públicas, em especial com menos amarras regulatórias e mais espaço para experiências inovadoras.
MB – Você acredita que a sociedade brasileira entende o verdadeiro valor do papel da educação na vida dos indivíduos e da nação como um todo?
Celso Niskier – Não, infelizmente o valor da educação não é compreendido por todos. Não se trata só de formação profissional, mas também da ampliação da consciência crítica, da construção da cidadania e de uma vida feliz e produtiva. É preciso resgatar esse valor da educação, em vez de focar meramente no preço dos serviços.
Retenção de estudantes nas IES
A retenção de alunos é um dos grandes desafios das instituições de ensino superior, e, para enfrentá-lo, a adoção de novas tecnologias e estratégias tem se tornado essencial.
Com um cenário cada vez mais dinâmico, as IES precisam não apenas atrair estudantes, mas também garantir que eles permaneçam engajados ao longo de sua jornada acadêmica. Veja o que diz Celso Niskier sobre esse tópico.
MB – Estratégias como o uso de dados, para analisar engajamento dos alunos, em diferentes disciplinas e atividades acadêmicas, observar comportamentos que antecipem possíveis evasões e apostar na adoção de novas tecnologias educacionais são boas alternativas para manter e fidelizar os alunos?
Celso Niskier – Sim, muitas IES já utilizam modelos predicativos e análise de dados na identificação de potenciais alunos com maior risco de evasão, e na antecipação destas tendências, além de se ter a possibilidade de criar réguas de retenção eficazes.
É uma ferramenta muito importante nesse momento em que todos os gestores se preocupam com as suas bases de alunos. Quanto às tecnologias educacionais, elas são muito essenciais para personalizar a experiência do aluno, durante a sua jornada de aprendizagem, aumentando o engajamento do jovem com a instituição e com os professores.
Neste contexto, acredito que tanto a inteligência artificial, quanto a análise estatística podem contribuir para um mapeamento claro dos sinais de que um determinado aluno vai evadir. Para isso, são considerados dados como frequência (presencial ou no AVA), inadimplência e resultados obtidos pelo estudante nas avaliações.
Não há uma fórmula mágica, mas a combinação de indicadores financeiros, acadêmicos e socioeconômicos do estudante, inclusive anteriores ao ingresso na IES, como a nota no Enem, o tempo que demorou para efetuar a matrícula, distância entre a residência e a instituição. Com esta análise, mesmo antes do início das aulas, é possível antever os alunos com maior possibilidade de evasão e trabalhar o acolhimento necessário para que eles consigam concluir suas graduações.
O Brasil precisa de novos profissionais e isso é alavanca suficiente para estimular a busca pela formação profissional de nível superior. Se vislumbramos um futuro para o país, ele passa indiscutivelmente pela valorização da educação em todos os níveis
MB – Ter uma diversificação das modalidades de ensino: a distância, presencial e híbrido é uma boa saída para as IES manterem seus quadros de alunos estáveis?
Celso Niskier – Diversificar sim, mas com atenção ao fato de que os tíquetes de EaD são muito menores, o que cria a necessidade de escala na oferta de cursos e polos. Muitas pequenas IES, que não tem credenciamento, devem buscar parcerias que permitam que elas desfrutem da tendência de crescimento do EaD, com poucos investimentos. Todos terão que se adaptar a essa nova realidade, incluindo as possibilidades trazidas pelos Quadrantes Híbridos.
Evasão: um grande desafio
A evasão no ensino superior é um dos maiores problemas enfrentados pelas instituições de ensino, impactando tanto a sustentabilidade financeira das IES quanto a formação de profissionais qualificados para o mercado.
Nos últimos anos, esse problema se agravou devido a fatores como a crise econômica, a redução do financiamento estudantil e os efeitos da pandemia, que forçaram muitos estudantes a abandonarem seus cursos.
Celso Niskier analisa esse cenário e dados preocupantes sobre a evasão acadêmica e discute caminhos para reverter essa tendência e fortalecer a educação superior no Brasil.
MB – Atualmente a evasão, retenção e captação de alunos são os maiores desafios das IES. Quais os reflexos desse contexto no viés educacional e financeiro das instituições?
Celso Niskier – Sim, a evasão é um dos grandes desafios para as IES, ainda mais pelo quadro agravado durante a pandemia. O setor já enfrentava queda na base de alunos, devido às dificuldades econômicas do país e à falta de financiamento estudantil adequado. Essa tendência foi ampliada pela chegada da COVID-19.
MB – Você comentou, em um artigo recente, que os números de evasão são preocupantes, quando se fala do abandono dos cursos de graduação. Como tem sido este processo?
Celso Niskier – O abandono dos cursos de graduação pelos estudantes é sim preocupante. De acordo com dados do Semesp, quase 3,5 milhões de estudantes largaram seus cursos em 2021, apenas nas instituições privadas, o que equivale a uma taxa de evasão de 36,6%, índice inferior apenas ao registrado em 2020 (37,2%).
Mesmo com esta pequena queda, devemos avaliar que a permanência dos estudantes, no nível terciário da educação, sempre foi um desafio, mas tornou-se um problema crônico nos últimos dois anos, quando a crise econômica, potencializada pela pandemia, se somou ao esvaziamento da principal política pública de financiamento estudantil do país e aos altos índices de desemprego.
MB – Os dados do Semesp não são, exatamente, opostos aos divulgados pelo Censo 2020, que fala em crescimento? Como se pode explicar estes dois cenários tão distintos?
Celso Niskier – Os dados do Censo consideram a base efetiva de alunos matriculados durante o ano. Os dados do Semesp consideram os alunos que entraram e saíram, ao longo do ano. Não são conflitantes, são duas visões diferentes dos números.
MB – Qual é o “peso” para o setor educacional, da evasão acadêmica meio a uma pandemia, que tem criado situações práticas para afastamento e desestímulo dos estudantes, como a necessidade de abandonar os estudos para trabalhar?
Celso Niskier – É um “peso” muito grande, pois cada aluno que evade é um sonho perdido. Além disso, com a queda da base de estudantes, não atingiremos as metas do Plano Nacional de Educação e correremos risco de um futuro “apagão” da mão-de-obra qualificada, como já está acontecendo em várias áreas do mercado de trabalho, em especial a área de Tecnologia da Informação.
MB – Como você visualiza os próximos anos? A evasão de mais de um terço dos graduandos é um problema secundário na educação superior? Ainda há saídas?
Celso Niskier – A evasão de mais de um terço dos graduandos não pode seguir sendo um problema secundário na educação superior. Garantir a permanência dos estudantes precisa ser alvo de políticas públicas robustas, assim como o acesso. O setor particular tem se articulado para mitigar esse drama, mas resta saber até quando teremos fôlego para seguirmos sozinhos nessa batalha.
Porém, há esperança de retomada, especialmente a partir do ano que vem, mesmo que lentamente. O Brasil precisa de novos profissionais e isso é alavanca suficiente para estimular a busca pela formação profissional de nível superior. Se vislumbramos um futuro para o país, esse futuro passa indiscutivelmente pela valorização da educação em todos os níveis.
FAQ
A captação e a retenção de alunos são desafios constantes para as instituições de ensino superior. Nesta seção, esclarecemos alguns conceitos importantes relacionados à permanência dos alunos no ensino superior.
O que é e como fazer captação de alunos?
A captação de alunos refere-se às estratégias adotadas pelas instituições para atrair novos estudantes e aumentar o número de matrículas. Isso pode ser feito por meio de campanhas de marketing digital, parcerias com escolas, programas de bolsas e diferenciais acadêmicos, como infraestrutura e metodologias inovadoras. O objetivo é mostrar os benefícios da instituição e conectar-se com o perfil dos futuros alunos.
O que é retenção escolar?
A retenção escolar no ensino superior está relacionada às ações que buscam manter os alunos matriculados até a conclusão do curso. Isso envolve suporte acadêmico, monitoramento do desempenho, oferta de atividades complementares e um ambiente de aprendizado que estimule o engajamento. Estratégias eficazes de retenção ajudam a reduzir a evasão e melhorar a experiência do estudante.
O que é evasão escolar?
A evasão escolar ocorre quando o estudante abandona o curso antes de concluí-lo. No ensino superior, isso pode acontecer por diversos motivos, como dificuldades financeiras, falta de identificação com o curso, desafios acadêmicos ou falta de suporte da instituição. Para reduzir a evasão, as universidades devem investir em acompanhamento personalizado, flexibilidade curricular e programas de apoio ao aluno.
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